Os desafios da arte e da cultura à margem: A Experiência Cine Club CEP - Lagoa Santa MG

Portugal Braga - Abril 2015

A pouco mais de um mês, respondendo a uma convocatória lançada via Internet, fui levado a conhecer os trabalhos desenvolvidos pelo CEP Lago Hotel e através deste, recebi a inédita proposta de tentar articular um cineclube na periferia do município de Lagoa Santa. Me lancei a esta aventura novamente de peito aberto, e em pouco tempo conseguimos organizar o que foi nos dias 3 e 4 de abril de 2015, a estreia do I Cine Club CEP Lago Cultural.




Localizado a cerca de 10 kms do centro de Lagoa Santa e a 5kms da Gruta da Lapinha, o CEP Lago Hotel apresenta uma infra estrutura espetacular para a realização de eventos , contado com uma ampla sala climatizada e equipada para teatro, cinema, palestras, entre outros. A primeira vez que fui levado à sala sede do então futuro cineclube, pelo Mauro Ribeiro, idealizador do CineClube, e administrador do Cep Lago Hotel, pude sentir a mesma magia de quando realizei meus primeiros filmes, o cinema estava alí dormindo, esperando para despertar em glória. Ajeitei-me em uma de suas confortáveis poltronas, e alí terminamos nossa primeira conversa.




Quando voltava desta reunião, minha cabeça tentava retomar algumas informações um dia lidas sobre a carência de salas de cinema, e espaços de exibição em cidades do interior. Buscava também em meu hd interno informações que ao longo de minha vida havia colido sobre cineclubismo, sua importância histórica e formativa; a retomada e fortalecimento recente através de incentivos, a programadora brasil, entre outros. O pensamento também sempre trazia as similaridades e interatividade do projeto proposto pelo CEP Lago Hotel com meus próprios projetos pessoais e artísticos que a alguns anos me trouxeram para a Lapinha e nos quais tenho dedicado grande parte de meu trabalho.

Acredito na arte, no cinema e na educação como forças motoras da transformação social e cultural. O CEP surgiu em sua essência e origem criado pelo eminente pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, como centro de educação presencial, e como me foi explicado pelo Mauro, responsável por dar continuidade “à obra” de seu tio,esta vocação precisa ser fortalecida e retomada, uma vez que este sempre será a meta do CEP Lago Hotel e todas a instituições relacionadas. Tô dentro, aceitei o desafio e começamos a produzir nossa estreia.





O Cineclubismo no Brasil e o CineClub CEP Lago Cultural Breve retrospectiva:

Apesar de algumas experiências anteriores, o marco inicial do cineclubismo no Brasil é a criação em 1928 do Chaplim Club no rio de Janeiros, a partir de então começaram as exibições e discussões sistemáticas de filmes no brasil. O Chaplim Club lançou a publicação de cinema, O FAN, e foi também o responsável em 1932, pelo lançamento de um dos filmes mais importantes do cinema Brasileiro, “Limite” de Mario Peixoto.




Outro marco importante se dá em 1940 com a criação do Club de Cinema de São Paulo, sendo este logo fechado pelo DIP - (Departamento de Imprensa e Propaganda). Com o fim do estado novo em 1946 o Club de Cinema retoma suas atividade , surge a Filmoteca do MAM, embrião da Cinemateca Brasileira , e neste momento começam a surgir outros clubes e de fato um movimento começa a se caracterizar. A principio partiu do meios acadêmicos e tinham amplitude restritas ao meio intelectual, mas já sinalizava o surgimento de um pensamento crítico em torno da produção oferecida na época.




A década de cinquenta se caracteriza por um período organizacional do movimento cineclubista com o surgimento das primeiras entidades que ofereciam suporte para a atividade, auxiliando na distribuição e organização de mostras e oficinas. Em 1956 cria-se o Centro de cineclubes de São Paulo, seguido da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro, Federação de Minas, do nordeste, gaúcha..., Chegamos então ao efervescentes anos 60, de Glauber Rocha, Leon Hiszman, Pereira do Santos, Jean Claude Bernadette e o cinema novo brasileiro ganha destaque internacional, todos estes e muitos outros em sua biografia, se formaram através deste cineclubes.




Em 1962 é criado o Conselho Nacional de Cineclubes. Em uma década de grande agitação, onde a juventude assume o protagonismo cultural e político em todo o mundo, o movimento se fortalece em universidades e escolas, seguindo o ritmo de algumas manifestações do período como o Centro Popular de Cultura, CPC organizado pela União Nacional dos Estudantes, o “lema e a ordem do progresso era levar cultura ao povo”. Vem então a “dita dura” a acabar com a festa, toda e qualquer manifestação cultural de caráter minimamente democrática é extinta e todas as entidades cineclubistas são proibidas de operar.




Atravessando os anos de chumbo, chegamos aos hippies de 70. A atividade aos poucos começa a se reorganizar, apesar das constantes censuras, perseguições, duras, invasões e apreensões de filmes. Marco desta década é a criação da ABD ( Associação Brasileira de documentaristas e curtametragistas), em 1973 começando a se organizar sindicalmente, os artistas agora passavam a profissionais de cinema.




Entrando nos transloucados anos oitenta, década da abertura e das diretas já, os cineclubes se articulam a partir de sindicatos e associações atingindo afeições extremamente populares. Em 1985 com o fim da dita dura, este modelo essencialmente político cultural começa a perder sua função, com o fortalecimento da democracia. O Cineclubes então começam uma nova fase vista como mais profissionalizante, investindo em projetores e equipamentos de 35 mm, as exibições tomam caráter mais artístico e cultural, são exemplos deste período o Cineclube Bexiga em São Paulo, Estação Botafogo no Rio e aqui em terra belzontinas o saudoso cineclube Savassi. Apesar desta experiência agradar muito cinéfilos e conseguir certa durabilidade, os negros anos 90 chegaram trazendo Fernando Collor e a quase extinção da produção cinematográfica brasileira. A maioria dos cineclubes e entidades representativas simplesmente desaparecem salvando apenas algumas exceções. Surgem os centros culturais e as exibições se tornam cada vez mais restrita, o modelo Cineclube Bexiga e Savassi são varridos do mapa.




Pelos anos 2000, entramos o novo milênio, em tempos de bugs e guerras, o cinema brasileiro como fénix, da sinais de seu renascimento, e junto com ele vemos a retomada do cineclubismo, iniciativas voltam a se espalhar por todo o país. Esta fase é marcada pela retomada das atividades do CNC (Conselho Nacional de Cinema), paralisado desde o golpe militar de 1964. Cineclubistas históricos assumem cargos na Secretária de Audiovisual e atrelados ao ministério da Cultura de Gilberto Gil lançam o importante programa Cinema mais Cultura.




É aqui que eu entro nesta história novamente em 2003, seguindo a barca cultural da nova onda “descentralizadora” de Gil, produzi, roterizei, dirigi e montei meu primeiro curta metragem sério: “Candombe Do açude: Arte, Cultura, e Fé”, que recentemente em 2015 tive a honra e o prazer de reezibi- lo na estreia do primeiro cineclube de Lagoa Santa, Cineclube CEP Lago Cultural. Trabalho despretensioso que graças a novas tecnologias que eu tomava conhecimento naquele momento me levou a viajar e conhecer um pouco mais de perto alguns aspectos da produção, e me jogou numa onda de produções cinematográficas comerciais e autorais, bem sucedidas e as vezes nem tanto.




 

Abril de 2015 - Cine Club Cep Lago Cultural de Lagoa Santa MG

Tínhamos cerca de 30 dias para realizar a primeira experiência. A verba era nenhuma, apenas para custos de locomoção e contatos. A primeira sessão ou a estreia de nosso cineclube é que nos daria nossa primeira impressão e a realidade da empreitada que nos lançávamos. Traçamos um plano e começamos a executar. Entre os primeiros passos da lista precisávamos levar ao conhecimento dos gestores públicos da cultura e do turismo em nosso município o início de nossa caminhada e nossa precisão por apoios. Foram -se ofícios, tempo e energia. Cumprimos nossa missão e estendemos nosso convite a todos da administração pública, com ênfase às secretarias de turismo, cultura e educação.




A segunda etapa foi concentrar no plano de mídia local , e com apoio do excelente trabalho da Dany Lima, conseguimos fazer chegar releases sobre nosso inédito evento cultural aos principais veículos locais, impressos, de internet e etc.

A data se aproximava, concentramos então nossos esforços em uma divulgação via redes sociais e acertamos os últimos detalhes de equipamento. Entre nossos principais públicos-alvo estão as comunidades do entorno da sede de nosso cineclube, entre elas, Vila Maria, Campinho e Gruta da Lapinha. Neste ponto já percebia que a carência de um material impresso, como cartazes e folders poderiam ser cruciais, uma vez que a internet ainda é escassa na região. Tocamos para frente, a verba que poderíamos ter usado para este material agora tinha que ser gasto em aluguel de equipamento de exibição, uma vez que até aquele momento nossos pedidos de apoio foram frustrados.




 

Os dias 3 e 4 de abril de 15 – Estreia Cine Club CEP Lago Cultural

De acordo com o guia para prática cineclubista volume III, distribuído às escolas pelo governo do Rio de Janeiro:

“É muito comum que no início das atividades de um cineclube haja poucas pessoas na plateia. Seja por falta de hábito das pessoas em frequentar eventos culturais, ou por desconhecimento do que seja um cineclube, ou por falta de material para divulgação ou até mesmo por dificuldades de infraestrutura local.”

A data escolhida para a estreia era junto com o feriado da Semana Santa, com duas sessões previstas uma na sexta e outra no sábado. A sala estava pronta, o equipamento testado. Com algumas canetas coloridas desenhei um cartaz móvel para fixar na entrada. O Mauro preparava a nova iluminação, nosso cinema rural iria estrear.

Apesar de nunca ter me envolvido diretamente na organização de um cineclube, pela minha experiência com arte e cultura, já não criava grandes expectativas. Meu saudoso pai por muito tempo produziu e fez a curadoria do importante Cineclube TJMG, que hoje recebe seu nome.

Acreditava que no sábado seria o grande dia. Qual surpresa não foi quando vi algumas pessoas chegando para a primeira sessão; alguns hóspedes se aproximando de nossa placa chamativa estilo “free hand and no talent”. Encher a sala é sonho, pois tenho a impressão de que são mais de 200 lugares, mas foi bonito ver as cerca de 25 pessoas que compareceram neste singelo momento. O filme foi aplaudido e o debate que se seguiu foi aquecido com a participação de praticamente todos os presente. O envolvimento alcançado pela arte naquele dia foi surpreendente, e fez todos refletirem.




Chegamos ao sábado, feriado, o dia em que acreditávamos que iria realmente encher. O sucesso da sexta ainda estava em nossa mente. Eu pessoalmente convidara pessoas e nesta data esperava o maior comparecimento. Enfim a realidade bateu em nossa porta novamente. Neste dia o debate foi também aquecido porem o comparecimento se reduziu a menos da metade. Chegava a hora de avaliar nossa primeira empreitada, buscar novos elementos e informações, havíamos colocado a primeira pedra, hora de preparar a massa e começar a subir parede.

Alguns dias depois fizemos uma reunião de avaliação e projeção de nossas ações futuras.
Eu , Mauro Ribeiro, e Danny Lima entre outras questões ressaltamos o sucesso desta primeira etapa e principalmente o modelo adotado como ponto de partida e suas possibilidades, erros, acertos e ajuste possíveis. Um ponto foi unânime, a necessidade da persistência para de fato encontramos as pessoas que valorizam esta ação: nosso público, nossos clubistas, nossos multiplicadores e mantenedores.




Para este ano vamos trabalhar com uma agenda mensal, e a partir de junho retornaremos nossas atividades com o II˚ Cine Club CEP Lago Cultural. Esta primeira experiência seguida agora este período de reflexões, articulações, estudos e planejamentos vêem nos mostrando os caminhos e possibilidades que podemos seguir. Pela carência de acesso a informação, à arte e a cultura, ações como esta proposta pelo Cep Lago Cultural é de extrema importância para todo o município e principalmente para as comunidades do entorno, visto que são raríssimos os municípios do interior que possuem uma sala de cinema com programação ativa durante todo o ano. Mas para isso acreditamos que muito ainda resta por ser feito, precisamos chegar aos amantes da arte e do cinema, aos artistas, formadores de opinião, jovens e adultos, para que estes possam também se apropriar deste espaço, para que possam debater e exibir seus filmes e de outros; fazer de nosso cineclube uma realidade.

CEP - Hotel, Centro de Capacitação e Convenção - 2010
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